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sábado, 1 de dezembro de 2012

Cair

Algo escarnece de nós, às nossas costas (...)

(...) e observo pessoas passando; agarrando-se firmes aos corrimões dos ônibus; determinadas a salvar suas vidas. (Virgínia Woolf. As ondas)

                                       

Dizem que quando um avião cai, as pessoas que estão dentro dele morrem antes que ele se espatife trágico no chão. Quando estou voando, como agora, agradeço por essa informação valiosa e consoladora . Morrer de susto, e nem sequer sentir a terrível dor de tão violento impacto! Apenas apagar-se no ar. Os corpos inanimados, desmembrados talvez pelas pontas grossas das rochas, assemelhando-se a minúsculos bonecos desmontáveis, uma coleção playmobil completa nas rechonchudas mãos de uma criança rica.
Ontem, antes de me deitar, vivenciei alguns minutos de pânico, quando li uma notícia sobre a queda de uma aeronave. Tratava-se de um jato, com 29 passageiros a bordo, que caiu no Oceano Índico. E o pior: todos sobreviveram! Então eu havia sido enganada? As pessoas não se apagam no ar, como me disseram? Não se dispersa seu sopro de vida antes que seus corpos se quebrem como galhos ressequidos pelo sol de um verão inteiro?
Só depois de continuar lendo o informe jornalístico é que voltei a ter paz: o tal avião despencou logo após a decolagem. Estava ainda muito baixo, quando o combustível começou a vazar como uma torneira.  Com tão pequena variação de pressão, não deu nem tempo de ninguém morrer de susto. 29 paradas cardíacas simultâneas exigiriam alturas mais ousadas...
Enfim, eles tiveram sorte. Foram acolhidos pela maciez do mar. E eu voltei a acreditar que a dor não existe para os diretamente envolvidos em tragédias desse tipo. Quero continuar acreditando.

II
Estou voando. Não gosto disso. Jamais me acostumarei. Estamos a quantos mil pés de altura? É verdade que esse pássaro monstruoso está atravessando os ventos a quase mil quilômetros por hora? Que cidade  estamos sobrevoando? Tudo tão pequeno lá embaixo, um mapa do Google se desenha na minha janela. E uma mão cruel, de dedos ásperos comprime meu estômago e meu coração, como se ambos fossem um órgão apenas. Às vezes o estômago bate forte e disparado, latejando de inchaço. Outras vezes o coração queima ácido, com ânsias de vômito. A mão deve ter entrado pelo meu distraído umbigo, porque também tenho cólicas. E a mão é tão grande que alcança minha garganta, secando minha saliva. Sou toda angústia. Me sinto como deve se sentir um pano de chão de porta de banheiro público. Que lama!

III
Ao longo de suas vidas as pessoas caem bastante. Muitas dessas quedas são até graciosas, como as dos bebês que aprendem as dar os primeiros passos. Outras acontecem, cronologicamente, no outro extremo da vida e mesmo que não sejam ainda fatais, são o prenúncio de um fim: são as tristes quedas dos velhos.
Pensando nisso, para me distrair da angústia, resolvi listar aqui, alguns de meus tombos mais memoráveis:

1- Aos 4 anos, em um caminhão de mudança. Eu estava de pé na carroceria, o caminhão arrancou e eu caí de joelhos. Doeu. Um pouco.
2- Eu devia ter uns 5 anos... Não me lembro nem do antes, nem do depois: ficou apenas uma imagem sob a chuva. Meu pai carregava meu irmão no colo. Era noite e chovia forte. Ele correu, me deixando para trás. Com medo da noite e da tempestade eu tentei acompanhá-lo, mas caí numa poça de lama, rasgando o joelho direito em uma ponta de ardósia que estava fincada no chão, ainda sem asfalto. Doeu. Muito. Ironicamente, eu apertava nas mãos um daqueles guarda-chuvas de chocolate que faziam tanto sucesso entre as crianças da década de 1980.
3- Aprendendo a andar de bicicleta.  Foram três tombos e eu já estava iniciada. Doeu, mas foi uma dor heróica, cheia de orgulho. Será que posso chamar aquilo de dor feliz?
4- Contando uma história engraçada para uma amiga. No meio da performance que a história exigia, escorreguei numa coisa escorregadia, é claro. Minha coluna vertebral chocou-se com um toco de árvore. Doeu por semanas.
5- Indo do estacionamento ao trabalho, a pé. Tinha uma raiz de árvore no meio do caminho. Era uma descida. Tropecei, rolei sobre meu próprio corpo, estraguei o relógio comprado em Paris, esfolei todo o antebraço, e o danoninho que eu transportava nas mãos aderiu convicto, aos fios dos meus cabelos.
Se riram de mim quando caí? Não sei. Não costumo olhar para os lados quando caio porque fico com vergonha. Mas posso dizer que nunca ri das quedas alheias. As pessoas quando caem são tristes, miseráveis. É covardia rir da tristeza de alguém.
Penso agora em Albertine, personagem de Proust, cuja queda fatal (de um cavalo) provocou uma das mais belas elegias de toda a literatura universal. E penso também na queda de Percival, personagem de Virgínia Woolf, também arremessado de um cavalo rumo à morte. O que se segue a tão grave acontecimento na narrativa de As ondas? Elegias, as tristes palavras dos amigos, que em páginas e mais páginas tentam em vão nomear uma perda.
Quedas são tristes, não combinam com gargalhadas. Quedas exigem elegias, quando fatais. E quando não matam, como seria desejável o gesto simples e nobre de um braço solidário estendido, a oferecer ajuda!

IV
Há pessoas que provocam a própria queda. Jogam-se de edifícios altíssimos, dão algumas cambalhotas no ar e tornam-se uma fratura em meio ao trânsito,uma ferida aberta em plena quentura do asfalto. Há pessoas que provocam a queda de outras, como num filme de Hitchcock. E há pessoas que se sentem culpadas pelas quedas dos outros...

V
Quando eu tinha 11 anos era tão magra que tinha medo de que me partissem ao meio. Todo mundo é quebrável, eu sei. Mas eu era mais. Pesava míseros 27 quilos, os quais eu precisava manter inteiros e em terra firme. Ventanias e tempestades me aterrorizavam.
Certa vez, voltando da escola num fim de tarde, sob  um céu  pesado e vento forte, fiquei tão assutada que joguei minha mochila nas mãos de minha mãe e corri como uma louca, deixando-a para trás. Mamãe não era mais jovem, já tinha mais de 50 anos... Tentou me acompanhar, mas caiu. Eu devia estar a  500 metros dela, quando ouvi seu grito. Voltei. A imagem de sua fragilidade foi crescendo dentro dos meus olhos.
E doeu. Doeu mais, muito mais do que todos os meus tombos juntos.

VI
Meu pai começou a morrer com uma queda. Foi assim: caiu da cama de madrugada. Acordei com um estouro. Era o nariz dele que tinha se arrebentado no chão. Convulsionado, ele se agitava com a cara enfiada numa poça de sangue...
Depois começou a cair pelas ruas. Vizinhos o amparavam. Ficava desmemoriado por horas...
E foi assim, até a última queda, da qual ele nunca mais se ergueria.
Mas... Como disse a Clarice: já está se tornando difícil escrever.  O piloto já anunciou que em instantes pousaremos em segurança.
Algo me incomoda. Estaremos seguros em solo? Porque ainda há as escadarias sem iluminação e os pisos escorregadios...
Agarremo-nos, portanto, aos corrimões. Não percamos nossa firmeza.
É preciso salvar nossas vidas.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A gestação do mar



Era verão.
O céu à beira-mar já era fecundado pela noite e os últimos banhistas deixavam seus rastros na areia. Tinham o aspecto cansado dos cabides: carregavam toalhas, chapéus, cestos, sandálias e bolsas nas costas queimadas pelo sol de um dia inteiro.

Depois do crepúsculo a praia ficou vazia rapidamente. Mas não totalmente vazia: havia ainda pequenos barcos flutuando nas águas distantes,alguns casais enamorados e duas garotas solitárias: uma caminhava cabisbaixa pela areia e a outra permanecia sentada,olhando longamente para a escuridão das águas.

A que caminhava tinha o rosto pálido,cabelos longos e pretos e gestos de borboleta ofendida.

A que olhava para as águas escuras era magra e alta, tinha cabelos revoltos. Havia algo de pássaro em suas atitudes: uma agressiva delicadeza, uma ânsia de voo e a promessa da queda, da trágica queda final.

E foi assim que se encontraram: do cansaço da de cabelos longos.Ela que caminhava há horas, esmagando inutilmente grãos de areia, decidiu sentar-se junto a desconhecida de cabelos revoltos, "belos cabelos de bronze", pensou, queria descançar as pernas.

Cabelos revoltos se deu conta da presença tão próxima da outra e seu coração se alegrou. Na verdade, ficara observando a caminhada dela, sutilmente.

Com o luar atrás de si e os fios de bronze esvoaçando por causa do vento úmido que vinha da escuridão das águas, Cabelos Revoltos sorriu.Sorriso que disputou ferozmente claridades com a lua e que feriu mortalmente Cabelos Longos. Com o coração tomado por febres, Cabelos Longos retribuiu aquela beleza com um tímido "oi", intumescido de desejo.

Ficaram até muito tarde alí, conversando sobre suas vidas. Se apresentaram: A de cabelos longos se chamava Helena; a de cabelos revoltos, Agnes. No entanto,seus nomes verdadeiros, para mim,são os aspectos de seus cabelos,que dizem mais sobre elas do que os nomes de batismo.

Helena, por exemplo, era dada a permanências, tinha uma vida que considerava segura,não obstante o cansaço, sem mudanças drásticas. Estudava numa faculdade da capital,tinha um namorado de quem era noiva há 6 anos,queria um futuro tranquilo,com trabalho, família, filhos. Um futuro longo e tranquilo, como seus cabelos.

Já Agnes tinha o espírito inquieto.Era possuída pela tragédia dos poetas. Amava o drama, as paixões, o sexo, as transformações violentas, a força das marés.

Dali seguiram para a praia vizinha, onde Cabelos Revoltos tinha uma casa.

E, no quarto, enquanto trocavam delicadezas aflitas entre si,era como se um mar inteiro jorrasse entre as pernas de ambas e as vagas desse mar de ressacas violentas sugassem uma para dentro da outra, num movimento furioso de demências incontidas. Mar que nascia, doce, do ventre das duas, ou, quem sabe,dos relevos dos seios, untados de saliva e massacrados por dedos repletos de bocas famintas pela pele perfumada das fêmeas.

E depois de horas gestando o mar,ficaram à deriva, náufragas e nuas, num misto de sal e doçura, sob os olhares da lua.

Agnes, cujos tentáculos de polvo comprimiam o corpo pálido de Helena, trazia nos olhos a escuridão das águas noturnas. Helena sonhava com luzes de embarcações antigas e com trilhos de trem quando anoitece.

E,dessa forma, deram à luz a mares belíssimos, durante todo o verão.

Mas o outono chegou.

E foi assim que se despediram:
Nos pensamentos de Helena, a de cabelos longos, sonhos burgueses, American Way of Life,carrinhos de bebê e camisetas de homem, numeradas e suadas nos fins de semana.

Dentro do coração de Agnes, a de cabelos revoltos,ciganos sérvios de Fellini dançavam uma melodia pagã,num navio azul,impregnado da noite.

Moby Dick

Não se pode simplesmente erguer a mão com a espada e esperar que esse gesto vazio seja o responsável pelo fim da vida do dragão. Não se mata um dragão com um golpe. Enquanto somos pequenas criaturas efêmeras, que erramos vivos durante uns poucos cinquenta anos, os dragões tem milênios vagarosos para envelhecer, endurecer ossos e músculos, acumular riquezas e sabedoria, além de aprimorarseu hálito de fogo. Ninguém pode esperar que matar um dragão seja uma dessas ordens do dia ou a conclusão de uma viagem ou uma oportunidade única que aparece para uns poucos escolhidos. Somente uma inocência que beire a estupidez pode fazer crer que essa imensa diferença de forças possa se resolvernuma pequena incursão de poucos meses até o lar do dragão, onde o encontraremos dormindo e poderemos exercer nossa humanidade e bravura ao apunhalá-lo desacordado, presumindo que esteja indefeso e seja tocável, alcançável, superável. Para que aconteça essa luta é necessário buscar o impossível equilíbrio de forças.

E, antes de tudo, nunca há um dragão, mas o dragão.E isso faz toda a diferença.

O dragão dessa história é Fafnir. Não o mitológico Fafnir, esse é só um nome aproveitado, porque, sim, dragões possuem suas identidades cristalizadas e muito bem definidas. O caçador de Fafnir é Greg, nascido numa vila qualquer num mundo onde reinos e cidades são aterrorizados por dragões. Greg foi escolhido, assim que nasceu, para perseguir e derrotar Fafnir, que se permitiu esperar calmamente, destruindo outros adversários enquanto este ou outro qualquer ainda não se sentissem à altura para serem por ele esmagados. Não sejamos inocentes, o dragão já passou por essa situação muitas e muitas vezes.
Greg vive esperando o momento exato de confrontar o dragão e tudo que faz em sua vida, faz unicamente esperando esse grande momento. Seu único objetivo é matar Fafnir. Acorda para que um dia o mate. Come, trabalha, faz sexo, se desentende com o mundo e se acerta com pessoas, busca afinidades, especialidades, aprimora-se, envelhece e experimenta o universo (o quanto háque se possa aproveitar) para que um dia o mate. Não pode haver verbo que se afaste de sua causa única, ou reflexão que prescinda seus dentes, a envergadura de suas asas ou o peso de sua boca. A questão entre eles é uma questão de vida e morte para ambos. E, no entanto, Greg nunca viu Fafnir e o dragão não se importa com a existência de mais um humano.
Ainda assim Greg adivinha o dragão por todos os lados. Na tristeza perene dos velhos, no medo das mulheres com seus filhos esfomeados, na pobreza do espírito e da despensa dos homens comuns. Tudo aponta o dragão, tudo faz crescer o ódio e a certeza de sua missão. Tudo é matéria para que seus mestres (que nunca o enfrentaram) possam lhe descrever o terrível inimigo mais as táticas, os mecanismos, as estratégias para a vitória da humanidade. Temos um homem. Temos um dragão. Um único ódio e uma rivalidade que adivinhamos ser instantânea.

Mas a vitória pertenceria a todos.

De uma maneira que eu não consigo decifrar ou compreender, os mestres de Greg conseguem fazer essa crueldade parecer o prêmio, provavelmente único ofertado ao matador do dragão. E não faltam mestres que o ensinem, que o façam caminhar, viajar, aprender. Greg se versa nos caminhos da natureza, da magia, da batalha, nos caminhos que nossa concepção podem compreender num espaço de trinta e poucos anos, com dedicação e esforço (é comum nas missões nobres haver essa dose extra de dedicação e esforço).
E Greg conhece os reinos distantes e as filhas dos reis;
busca o anel mágico da vitória na terra das fadas;
traz a espada sagrada do túmulo do guardião do inferno;
aprende com o eremita místico a interpretar os sonhos;
forja na lava o elmo e a couraça mágica, que devem ajudá-lo e resistir aos dentes de Fafnir;
caminha com os índios sobre as árvores, sob a água e no lombo dos grifos, no céu.
Greg se sente pronto, como todos nós um dia nos sentimos prontos para algo que nos é completamente assustador e desconhecido, e parte em busca do Covil de Fafnir.
No caminho encontrará ainda outros (bravos? Pobres?) homens que vivem e caminham com o mesmo objetivo. E mesmo ao redor de todos esses, a batalha ainda é individual, objetivo de um e cada um deles. Caminham juntos por seis meses, seis dias e seis horas, pela trilha do infortúnio, que conduz ao grande castelo escuro, incrustado na montanha, onde Fafnir fez sua casa.
No caminho eles tem a oportunidade de destruir bestas menores e menos perigosas, como leões de asas, aranhas gigantes e homens muito fortes e deformados, banidos para o convívio com o dragão por não se parecem suficientemente humanos para as cidades. Os heróis menos preparados, talvez os que não se arriscaram o suficiente antes, caíram aí, antes da câmara principal. Apenas seis deles sobreviveram até a porta no último dos corredores do palácio/caverna. A porta, como todas as outras, é enorme e adornada com pedraria, ouro e ossos dos mais variados animais. Para passar não precisam mais que afastá-la um pouco e a experiência das outras portas faz com que realizem isso em relativo silêncio. Se Fafnir estiver descansando será pego completamente desprevenido e poderá ser morto rapidamente. Mas Fafnir não descansa e espera por eles no principal salão de seu castelo, construído especificamente para que ele possa derrotar deuses e demônios em eternas e sangrentas batalhas. O que dizer de seis simplórias criaturas humanas.

Inimaginável é o poder de Fafnir. Nada que Greg passou ou viu poderiam preparar seu espírito para o que o esperava naquele salão.

O aspecto aterrorizante do dragão não lembrava em nada as descrições reptícias com as quais ele se familiarizara. O enorme corpo denso do animal se equilibrava sobre três pares de patas escamosas, mas o corpo era liso e branco, como couro curtido e tratado. A cauda era curta e robusta, dividida em quatro partes, de onde pendiam centenas de pequenas ventosas dentadas. Nas costas, Três imensos pares de asas seráficas se agitavam para dar maior velocidade ao assassino. A colossal cabeça, um maciço bloco branco, era muito desproporcional ao resto e era o retrato de tudo o que havia de mais absurdo e terrível na existência. Os olhos laterais estavam separados por vários metros de uma testa acinzentada e bem abaixo, já há meio caminho do ventre, abria-se a fenda de sua boca.
O primeiro guerreiro avançou e foi feito em pedaços pela força das patas. Os cinco restantes perceberam que só teriam uma chance caso se organizassem parar atacar em conjunto.
Tudo ao redor se tornou mágico quando os cantos místicos foram entoados e os lutadores ergueram suas armas místicas. O salão brilhava, inabalável, mesmo quando martelos ribombavam e relâmpagos atingiam suas colunas. Fafnir tinha espaço suficiente para voar e respirar fogo sobre seus atacantes. Vitimados pelas chamas, pelas garras, pelo veneno, um a um, caíram os quatro homens sem nome que acompanhavam nosso protagonista. Havia duas únicas criaturas vivas na sala. Greg era um homem enfurecido, assustado, cansado e desprovido de esperanças. Fafnir era o apocalipse. Greg avançou como quem corre de encontro a uma locomotiva e conseguiu desviar o corpo de uma mordida certeira, além de golpear uma das patas do dragão. Fafnir fez uma curva no ar e subiu, descendo em seguida para seu ataque. A esquiva do guerreiro não foi tão eficiente nessa segunda vez e o poderoso maxilar do monstro se enterrou nos músculos da perna de Greg, decepando-a com a facilidade de quem arranca uma amora no galho. Dor, desespero e, acima de tudo, sangue. Greg se arrastava e golpeava o ar com a espada. Fafnir pousou e o encarou por alguns segundos que se estenderam como todo o tempo que Greg possuía em sua vida. Era o tempo que restava. O dragão virou a cabeça para que seu olho esquerdo pudesse focalizar o homem a sua frente. Esse homem era feito de pânico. Então o dragão atacou.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Gato, coração, parede


Quando o irmão chegou a casa naquela noite de outono trazia consigo uma caixa de papelão que tinha um filhote de gato dentro.
-Cuida dele.
 Foi o que disse à irmã, dois anos mais nova. Aquele pedido, ou ordem, tinha o mesmo efeito de um contrato de doação: o irmão havia encontrado o gato abandonado em um terreno baldio e tivera a ideia de salvá-lo daquela complicada situação, mas não teria paciência para cuidados, que exigiriam muita dedicação e amor. Mas todos esses requisitos a irmã tinha de sobra, ainda mais que nos últimos meses vinha sofrendo de solidão como nunca havia sofrido antes. Ela e a família haviam se mudado recentemente para aquele bairro feio, para uma casa velha e ela ainda não tinha feito amigos. E para deixar tudo mais difícil o pai não voltava para a casa há semanas e a mãe raramente saía do quarto, pois estava deprimida.
Então a menina recebeu o filhote de gato com os mesmos olhos agradecidos de um morto de fome diante do prato de sopa.
Levou a caixa com o animalzinho dentro para o banheiro. O bicho seria criado atrás da porta, para que a mãe não visse.
Então a menina viveu uma semana muito feliz, depois de dias arrastados de tristeza. Alimentava o gato. O pegava no colo. Acariciava seu pelo fofo. Deliciava-se ao vê-lo, na caixinha, estapeando coisas invisíveis no ar.
A menina não saía da porta do banheiro
E o gatinho ronronava, com doçura, retribuindo o carinho de sua nova dona.
E assim os dias foram passando.  A mãe continuava doente, mas a menina parecia quase curada de sua solidão.
Numa noite o pai apareceu, vindo das profundezas de sua ausência.
A menina sentiu um aperto no peito: soube de tal presença opressiva por causa de um bater de portas e do choro da mãe, provocado por aquele inesperado retorno.
Os passos do homem foram ficando cada vez mais sonoros: ele se aproximava e ela se encolhia de medo. O pai apareceu no corredor e eles se olharam, silenciosos. Ele tinha a expressão de um deus que quisesse devorar seus filhos.
Sem dizer nenhuma palavra ele avançou rumo à porta do banheiro, olhou para o gato com um misto de repugnância e ódio. Chegou perto da caixa, segurou o animal com a mão direita e o arremessou com força contra a parede.
 A menina fechou os olhos.
O barulho de coisa viva se quebrando foi tão triste, que a menina demorou a se dar conta do tinha acontecido. Ela ainda estava de olhos fechados quando o pai passou por ela resmungando algo que não dava para entender direito. 
O gato havia explodido?  Seus pedaços estariam espalhados pelos ralos e rodapés?
Lentamente ela abriu os olhos doloridos. Seu gatinho estava lá, num canto molhado. Não havia explodido, mas tinha ossos quebrados, articulações rompidas. Sangrava por dentro, como ela, que parecia ter acabado de levar um soco no estômago.
Era proibido chorar. A dor ficou corroendo seu interior, como um ácido, um grito querendo liberdade.
 Ela puxou os próprios cabelos, arranhou a própria pele, vomitou.
Enquanto isso, das orelhas e do nariz do gatinho, começavam a sair fios grossos de sangue.
Os ossos dela estavam quebrados também. 
O pai havia jogado era o coração dela na parede.
Ficou olhando a morte chegar devagar para o bichinho agonizante.
Ela perguntava, baixinho, para Deus, em quem ainda acreditava naquela época: “por que, se ele não tinha culpa de nada, por que, se eu também não tenho”?
Deus nunca respondeu. E para deixar tudo ainda mais difícil, soprou sobre a casa inteira um vento frio e  carregado de ausências.



Desejo Heroico


Foi de relance, quando atravessava uma rua movimentada do centro, que ele avistou a capa de um DVD erótico. Ergueu os olhos, desconcertado. Pediu perdão por ter pecado, ainda que seu olhar tivesse durado apenas num instante.
Mesmo nos quarteirões seguintes, a caminho do restaurante em que almoçava todos os dias, ele ainda pensava na imagem que ficara gravada em sua mente. Duas moças, uma morena e outra loira, ambas nuas e de costas, exibindo toda a fartura de suas nádegas, com as marcas deixadas pelos minúsculos biquínis definindo os contornos de suas peles bronzeadas. Balançou cabeça com força, como se assim conseguisse turvar essa imagem única, imperiosa.
Ergueu os olhos mais uma vez, enquanto seus lábios moviam-se numa prece inaudível. Não conseguia entender o que acontecia em seu interior. Nunca havia sentido o mínimo interesse nesses materiais duvidosos. Para ter sido atingido tão profundamente, no mínimo, já havia pecado e não se dera conta disso. E esse pecado oculto e ignorado seria conseqüência de seu afastamento espiritual. Desesperado, passou a tarde toda pelos cantos, no escritório onde trabalhava, em orações fervorosas que visavam purificar sua alma.
No caminho de volta para casa, em pé dentro do ônibus lotado, distraiu-se com o longo percurso e teve por fim alguns minutos sem ser assaltado pelas fantasias avassaladoras, ataques do demônio. Mas em casa, quando já tinha feito sua oração ao pé da cama, vestido com seu pijama, ele foi novamente invadido pelas mesmas imagens, sendo acompanhadas por um misto de expectativa, desejo e vergonha. Afastou novamente aquele turbilhão de pensamentos.
As imagens, contudo, não o abandonaram. Bastava passar perto da banca de jornais que seus olhos como que instintivamente buscavam a dupla exposta na capa do DVD. Para não alimentar a tentação, o jovem passou a evitar a banca, passando por outro caminho para chegar ao restaurante.
O desejo porém crescia cada vez mais intenso, as imagens cada vez mais vivas. Passava noites em claro mergulhado em fantasias, sempre no martírio de sentir-se a criatura mais suja do mundo. A culpa era então novamente encoberta por imagens da pele morena, bronzeada, das marcas dos biquínis fazendo um jogo de claro-escuro.
Até que em certa noite, quando ele pensou que iria enlouquecer, veio a resolução, clara como uma revelação divina, junto com uma expectativa infantil e por fim o sono reparador. Não havia mais imagens para torturá-lo, somente aquele silêncio que sucede a plena certeza. Quando a manhã chegou inexorável, a caminho para o trabalho, não foi mais assaltado por desejos irrefreáveis. Quem o visse até diria que seu rosto revelava uma maturidade marcante, de alguém que alcançara a sabedoria. Foi direto para a banca de jornais. Pediu logo o DVD erótico com simplicidade comedida, quase sereno. Recebeu o material, pagou e atravessou a rua olhando para o lado errado. O cobiçado DVD num instante escapou de suas mãos e um caminhão que passava no momento selou seu destino.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Funeral blue


Agora há pouco
quase vomitei
tudo
o que comi no jantar

É que entrei com tanta pressa
na noite
demasiado fria
descendo escadas
rumo à garagem.

Havia alguma coisa perdida
no porta-luvas.

E agora estou triste
como quem acaba de voltar de um funeral.

E implorei  aos ácidos
que estranhamente dissolviam meu coração
que não o maltratassem tanto;
que, em vez disso
roessem a massa azeda
que  subia
do estômago à garganta
como um elevador superlotado de obesos

Agora estou triste
como quem acaba de voltar de um funeral.

Não sei por que
às vezes caio de tão alto
se já conheço a dor
que é ter ossos partidos

  A noite
 (na qual entrei tão apressadamente)
 era vermelha
como se alguém houvesse esmagado morangos nas nuvens.

E eu estou triste
como quem acaba de voltar de um funeral

E depois de ter tentado trancar
a escuridão do lado de fora
e de nada ter encontrado no porta-luvas
um vento velho veio entrando
pelas fendas das janelas e fraturas
povoando toda a casa iluminada.

Chovia.

E eu estou triste
como quem acaba de voltar de um funeral.

Não sei por que
às vezes caio de tão alto,
eu que já conheço, tanto,
a dor de ter ossos partidos.

Ainda chove e finalmente os ácidos
ouviram meus clamores.
Os obesos se retiram um a um
de meu estômago, que aos poucos, se acalma.

Mas eu estou triste
como quem acaba de voltar de um funeral.

Não sei por que.
Ossos partidos.
Às vezes caio.
Eu que já conheço tanto!
A dor.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Augusto


Talvez se alguém tivesse dito a ele que logo depois do casamento o príncipe havia calçado a bruxa madrasta com sapatos de ferro e feito a velha dançar sobre um braseiro até morrer, as coisas teriam sido diferentes. Talvez. E de qualquer forma, ninguém disse. Ficamos com a versão de Walt Disney e as pessoas tem medo de saber e mais ainda de dizer o que sabem.
Diante do “e viveram felizes por muitos e muitos anos” escrito debaixodos rostinhos redondos e harmoniosos de Branca de Neve e seu príncipe, Augusto só conseguiu dizer, baixinho e entredentes:
_Felizes... essa puta.
Olhou para os lados, como se procurasse alguém que fosse repreendê-lo pelo palavrão, mas como estava trancado no quarto, sozinho, ficou ali saboreando seu ódio.
Estava de castigo por causa de uma briga na escola. Não soube explicar direito nenhuma razão pra coisa começar, parece que ele e outro sujeito se esbarraram num corredor e muito naturalmente começaram a trocar chutes e socos. Mais tarde, os pais de ambos foram repreendidos pela direção. Ao contrário do que se ouve contar normalmente, nenhum deles tentou defender o próprio filho ou acusar o filho do outro. Os garotos estavam em igual situação física (tanto em tamanho, como em distribuição de hematomas) e a ausência de um motivo para a briga levou os dois adultos a manterem uma postura séria e levemente amedrontada diante do diretor. Na saída da escola trocaram olhares de compreensão. Sem que houvesse um pedido de explicações ou uma discussão ou qualquer outra coisa, o pai de Augusto o arrastou pelo braço desde que desceram do carro, passando pela entrada do prédio, elevador, corredor do décimo primeiro andar e apartamento. O empurrou quarto adentro, batendo a porta com muita força e trancando-a pelo lado de fora. A ideia do antigo castigo prisão, com restrição de liberdade, fazia pouco sentido quando os filhos possuem quartos equipados com tvs, computadores, livros e brinquedos, mas alguns pais não conseguiram dar pela coisa.
Sentindo o nariz inchado e dolorido por causa de um soco, Augusto havia pegado um livro qualquer (uma dessas edições baratas, que homens sorridentes oferecem nas salas de aula) e oestava folheando até chegar àquela estranha conclusão:
_Essa Branca de Neve era uma puta!
Seu tom de voz agora era um pouco mais confiante, mas mesmo assim ele olhou instintivamente para os lados, se bem que de um jeito mais provocador. A única outra presença viva ali era o canário, tão engaiolado quanto ele, debaixo da janela. Os olhos arregalados do bicho o encorajavam.
_Puta! Devia dar pra todos esses anões de merda, essa vadia. E essa bichona de príncipe devia ser um corno!
Sua voz soava clara e ele sentia seu corpo dolorido, mas excitado. Cada palavrão fazia com que se sentisse vivo. O ódio o fazia se sentir vivo. A dor e o castigo aumentavam o ódio e ele passava a se reconhecer através da dor. Além disso, Branca de Neve agora o deixava num estado colérico, alterado, e enquanto o livro ficou jogado em cima da cama, aberto na última página, ele andava de um lado para o outro, repetindo:
_Puta... puta... puta... puta...
Ligou seu computador e começou a baixar um filme pornográfico. Continuava a repetir a palavra “puta” enquanto tirava a roupa e procurava por uma camisinha na mochila.
Nunca tinha feito sexo. Nunca esteve na presença de uma mulher nua (além da mãe, em raríssimas exceções constrangedoras). Havia beijado uma prima, uma vez, nas férias do ano passado e só. Mas sempre tinha camisinhas à mão, por zelo da mãe, da escola, das equipes de colônia de férias. Desenvolveu uma tara em se masturbar “protegido”.
Sentou-se a frente do computador e começou a assistir o filme. Gozou em menos de um minuto, jogou a camisinha suja no chão do quarto e recomeçou, furiosamente. Na tela um casal de americanos fazia sexo com violência e trocando insultos. Augusto gemia baixinho “puta...” enquanto batia punheta. Antes do segundo orgasmo teve uma ideia. Levantou-se, fazendo um esforço danado pra se segurar, e correu até sua cama. Gozou em cima do livro aberto, sujando toda a cenado “felizes pra sempre”. Ficou um tempo com seu pequeno pau em cima do livro, esfregando-o de leve na ilustração daquela Branca de Neve de cabelos curtinhos, bem Disney, de rosto colado ao do príncipe louro de bochechas rosadas. Os gritos do casal no computador tiraram Augusto desse estranho transe e ele se levantou pra desligar a máquina.
 Imaginando que passaria o dia todo trancado, deitou-se em cima do livro sujo e dormiu sem roupas, ouvindo o canário cantar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Madeleine


                                                                        I

            Alguma coisa me acordou quando ainda estava escuro. Talvez tenha sido o ruído de ovos de pombos se quebrando no telhado, bem acima da minha cabeça. Ou terá sido o arrulhar  das aves recém - nascidas, amedrontadas por terem vindo à luz em plena escuridão?
             Alguma coisa me acordou quando ainda estava escuro.

          Fiquei meio confusa no começo, como se tivesse acabado de me libertar das gosmentas cascas de um ovo aberto antes da hora, ou como se tivesse vindo voando de longe, muito longe e pousado em solo tenebroso, frio e amorfo.
       Mas foi no começo, apenas. Depois reconheci, aos poucos, a mobília do quarto, suas silhuetas familiares.
           No telhado, ao gemido fino e assustado dos pombos bebês veio se juntar uma outra música, a das vozes graves dos pombos adultos; vozes que na linguagem comum a essas aves deve ser uma espécie de cantiga de fazer dormir os pequenos, pois tal melodia se sobrepôs ao aflitivo choro dos filhotes, que finalmente se calaram.
          Foi então que vi uma luz vermelha num dos cantos do quarto. Não era nada demais: nenhuma visita de seres extra-terrenos, nenhuma atividade paranormal se desenrolava na casa enquanto eu dormia e não era, definitivamente, nenhum resíduo ectoplasmático de algum ser inominável.
          Era uma luz familiar, como os contornos dos móveis.
          Era apenas a micro-lâmpada do estabilizador de tensão.
      Tinha ficado acesa a noite toda e seu brilho solitário, naquela madrugada sem lua, num quarto de cortinas fechadas acabou me transportando, sem que eu quisesse, para outras noites de breu, quando eu , criança, precisava atravessar a casa inteira, no escuro, para ir, sozinha, ao banheiro.
          Era proibido acender as luzes e, por isso, aquilo era uma aventura épica.
        E, como em um rito, a cada travessia noturna havia o pai, mítico, fumando no escuro. Na ausência quase total de luz, a única fonte de claridade era a ponta em brasa do cigarro aceso, tão semelhante à pequena lâmpada vermelha que me  esqueci de apagar ontem, quando me deitei.
    A ponta em brasa do cigarro aceso funcionava como um farol marítimo para a minha momentânea cegueira:  é que o pai fumava silencioso no sofá da sala e o móvel ficava próximo à porta da cozinha que, por sua vez, dava acesso ao banheiro.

    O pai fumava, fumava muito e era como se tragasse a noite  para dentro de si, porque era só eu passar por ele que, logo depois, a noite virava dia, o escuro virava fumaça e meu medo milagrosamente se transformava em cinzas.

                                                                      II

    O pai não fuma mais. Fumou tanto a noite que um dia um pedaço dela nunca mais saiu de dentro do corpo dele. O pedaço decidiu ficar lá escurecendo seu sangue, até que tudo o que fazia aquela vida funcionar fosse, lentamente, perdendo a umidade. Até secar. Para sempre.
    Alguma coisa me acordou quando ainda estava escuro.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Promessa

É só mais uma manhã de Primaveras decapitadas
-Eu pensava.
Um a um, os matizes haviam se apagado
na superfície insólita de um filme antigo.

( Meu amor, o Passado é preto-e-branco, acaso percebeste?
A absurda farda do nazista;
O primeiro automóvel;
As olheiras de Proust;
O vestido esvoaçante da atriz...)

É só mais uma manhã de Primaveras decapitadas
-Eu pensava.
E já me apaziguava a promessa da lenta morte das cores.

Mas eu não sabia que Primaveras
tinham veias e sangue, como as mulheres.

E eu preferia, eu juro,
a tranquilidade eterna do Cinza
a essas tristes poças vermelhas
no meu Jardim devastado.


                             Poema publicado anteriormente em calidapoesia.blogspot.com.br

domingo, 5 de agosto de 2012

Sobre culpas e profetas...


Eu havia acabado de sair do trabalho. Sorte o trajeto até minha casa precisar de um ônibus. E sentado! Sorte? Mesmo? Aproveito essas longas horas para adiantar minhas leituras. Hoje o tempo é tão escasso que só mesmo em um lotação sacolejante que temos a oportunidade de uma outra viagem. E olha que às vezes eu até arrisco leituras malabaristas, usando para pendurar a mochila o mesmo braço que segura o livro.
E justo quando estava mais entretido em uma profana viagem literária, senta ao meu lado um rapaz. Roupas simples, bermuda, barba, jeito tranquilo e pacato. Entre suas mãos, uma Bíblia. Meus olhos escapam furtivamente para as páginas abertas, pois o rapaz não perde tempo para também aproveitar sua oportunidade de devaneio. Um título enorme parece alardear a este leitor clandestino, como uma propaganda: Malaquias. As primeiras palavras de um Profeta Menor. O Último Profeta.
Meus olhos retornam para meu próprio livro. Mas não estou mais sozinho em meu devaneio. Segue-me a culpa. Em minha leitura, o personagem visita um puteiro, reclama do bafo da puta. Enquanto meu companheiro de viagem passa um tempo com Malaquias.
De repente ele tenta chamar minha atenção, tocando com seus dedos meu ombro direito. Eu me viro para ele, em resposta. "Estou te incomodando?" pergunta ele, referindo-se ao seu ombro, que encosta em mim. Respondi que não, de certa maneira perplexo. Impossível estranhos não se encostarem em um lotação metropolitano. Ou seria outro o incômodo?
Novamente divago. Lembro-me da música que escuto com meu fone de ouvido. Uma banda de heavy metal, com seus temas polêmicos, profanos. Sim, estou profundamente incomodado. Comigo mesmo. Com a culpa que paralisa meus braços, que não me deixa dizer tudo o que fica apertado no peito. A mesma culpa que nasceu com este homem, que fazia o menino de sete anos orar pedindo a Deus que não o deixasse morrer dormindo, pois tinha medo de despertar no Inferno.
O rapaz em alguns momentos tentava puxar conversa. Percebi que eu mesmo, de tão incomodado, não dava muito papo. Educado e dócil, ele fazia perguntas das quais sabia as respostas como, por exemplo, o nome da avenida pela qual passávamos. Enquanto eu me perguntava se ele tentaria me evangelizar. Evangelizar. Outra demanda da culpa. Não evangelizar é deixar o outro perder-se. E permitir a perdição do outro é invocar sua própria perdição. Assim dizia Ezequiel. No caso, um Profeta Maior.
E toda essa culpa atravessava minha mente, enquanto eu me perguntava a real intenção do desconhecido jovem. No final, ele não queria me evangelizar. Parecia querer uma palavra de consolo, pois sua vida não estava fácil. Queria vender dois vales-transportes. Havia perdido o emprego e os documentos, inclusive os papéis do Seguro-Desemprego. Ele lamentava ter perdido o emprego de porteiro. Queria o que fosse possível, faxineiro, zelador, servente. Enquanto eu me preocupava com sua inconveniência. A culpa é um veneno compulsório. 
Não sei o que poderia ter feito por ele. Quem sabe ter conseguido seus dados para indicá-lo a algum conhecido que pudesse oferecer a ele uma oportunidade. Ou mesmo poderia ter dito: Deus irá guiar seus passos, ajudar você a encontrar um bom emprego. Afinal, acredito em Deus. Mas vale a pena acreditar na culpa?

Publicado anteriormente em http://oguardiao.blogspot.com/