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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Augusto


Talvez se alguém tivesse dito a ele que logo depois do casamento o príncipe havia calçado a bruxa madrasta com sapatos de ferro e feito a velha dançar sobre um braseiro até morrer, as coisas teriam sido diferentes. Talvez. E de qualquer forma, ninguém disse. Ficamos com a versão de Walt Disney e as pessoas tem medo de saber e mais ainda de dizer o que sabem.
Diante do “e viveram felizes por muitos e muitos anos” escrito debaixodos rostinhos redondos e harmoniosos de Branca de Neve e seu príncipe, Augusto só conseguiu dizer, baixinho e entredentes:
_Felizes... essa puta.
Olhou para os lados, como se procurasse alguém que fosse repreendê-lo pelo palavrão, mas como estava trancado no quarto, sozinho, ficou ali saboreando seu ódio.
Estava de castigo por causa de uma briga na escola. Não soube explicar direito nenhuma razão pra coisa começar, parece que ele e outro sujeito se esbarraram num corredor e muito naturalmente começaram a trocar chutes e socos. Mais tarde, os pais de ambos foram repreendidos pela direção. Ao contrário do que se ouve contar normalmente, nenhum deles tentou defender o próprio filho ou acusar o filho do outro. Os garotos estavam em igual situação física (tanto em tamanho, como em distribuição de hematomas) e a ausência de um motivo para a briga levou os dois adultos a manterem uma postura séria e levemente amedrontada diante do diretor. Na saída da escola trocaram olhares de compreensão. Sem que houvesse um pedido de explicações ou uma discussão ou qualquer outra coisa, o pai de Augusto o arrastou pelo braço desde que desceram do carro, passando pela entrada do prédio, elevador, corredor do décimo primeiro andar e apartamento. O empurrou quarto adentro, batendo a porta com muita força e trancando-a pelo lado de fora. A ideia do antigo castigo prisão, com restrição de liberdade, fazia pouco sentido quando os filhos possuem quartos equipados com tvs, computadores, livros e brinquedos, mas alguns pais não conseguiram dar pela coisa.
Sentindo o nariz inchado e dolorido por causa de um soco, Augusto havia pegado um livro qualquer (uma dessas edições baratas, que homens sorridentes oferecem nas salas de aula) e oestava folheando até chegar àquela estranha conclusão:
_Essa Branca de Neve era uma puta!
Seu tom de voz agora era um pouco mais confiante, mas mesmo assim ele olhou instintivamente para os lados, se bem que de um jeito mais provocador. A única outra presença viva ali era o canário, tão engaiolado quanto ele, debaixo da janela. Os olhos arregalados do bicho o encorajavam.
_Puta! Devia dar pra todos esses anões de merda, essa vadia. E essa bichona de príncipe devia ser um corno!
Sua voz soava clara e ele sentia seu corpo dolorido, mas excitado. Cada palavrão fazia com que se sentisse vivo. O ódio o fazia se sentir vivo. A dor e o castigo aumentavam o ódio e ele passava a se reconhecer através da dor. Além disso, Branca de Neve agora o deixava num estado colérico, alterado, e enquanto o livro ficou jogado em cima da cama, aberto na última página, ele andava de um lado para o outro, repetindo:
_Puta... puta... puta... puta...
Ligou seu computador e começou a baixar um filme pornográfico. Continuava a repetir a palavra “puta” enquanto tirava a roupa e procurava por uma camisinha na mochila.
Nunca tinha feito sexo. Nunca esteve na presença de uma mulher nua (além da mãe, em raríssimas exceções constrangedoras). Havia beijado uma prima, uma vez, nas férias do ano passado e só. Mas sempre tinha camisinhas à mão, por zelo da mãe, da escola, das equipes de colônia de férias. Desenvolveu uma tara em se masturbar “protegido”.
Sentou-se a frente do computador e começou a assistir o filme. Gozou em menos de um minuto, jogou a camisinha suja no chão do quarto e recomeçou, furiosamente. Na tela um casal de americanos fazia sexo com violência e trocando insultos. Augusto gemia baixinho “puta...” enquanto batia punheta. Antes do segundo orgasmo teve uma ideia. Levantou-se, fazendo um esforço danado pra se segurar, e correu até sua cama. Gozou em cima do livro aberto, sujando toda a cenado “felizes pra sempre”. Ficou um tempo com seu pequeno pau em cima do livro, esfregando-o de leve na ilustração daquela Branca de Neve de cabelos curtinhos, bem Disney, de rosto colado ao do príncipe louro de bochechas rosadas. Os gritos do casal no computador tiraram Augusto desse estranho transe e ele se levantou pra desligar a máquina.
 Imaginando que passaria o dia todo trancado, deitou-se em cima do livro sujo e dormiu sem roupas, ouvindo o canário cantar.

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