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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A gestação do mar



Era verão.
O céu à beira-mar já era fecundado pela noite e os últimos banhistas deixavam seus rastros na areia. Tinham o aspecto cansado dos cabides: carregavam toalhas, chapéus, cestos, sandálias e bolsas nas costas queimadas pelo sol de um dia inteiro.

Depois do crepúsculo a praia ficou vazia rapidamente. Mas não totalmente vazia: havia ainda pequenos barcos flutuando nas águas distantes,alguns casais enamorados e duas garotas solitárias: uma caminhava cabisbaixa pela areia e a outra permanecia sentada,olhando longamente para a escuridão das águas.

A que caminhava tinha o rosto pálido,cabelos longos e pretos e gestos de borboleta ofendida.

A que olhava para as águas escuras era magra e alta, tinha cabelos revoltos. Havia algo de pássaro em suas atitudes: uma agressiva delicadeza, uma ânsia de voo e a promessa da queda, da trágica queda final.

E foi assim que se encontraram: do cansaço da de cabelos longos.Ela que caminhava há horas, esmagando inutilmente grãos de areia, decidiu sentar-se junto a desconhecida de cabelos revoltos, "belos cabelos de bronze", pensou, queria descançar as pernas.

Cabelos revoltos se deu conta da presença tão próxima da outra e seu coração se alegrou. Na verdade, ficara observando a caminhada dela, sutilmente.

Com o luar atrás de si e os fios de bronze esvoaçando por causa do vento úmido que vinha da escuridão das águas, Cabelos Revoltos sorriu.Sorriso que disputou ferozmente claridades com a lua e que feriu mortalmente Cabelos Longos. Com o coração tomado por febres, Cabelos Longos retribuiu aquela beleza com um tímido "oi", intumescido de desejo.

Ficaram até muito tarde alí, conversando sobre suas vidas. Se apresentaram: A de cabelos longos se chamava Helena; a de cabelos revoltos, Agnes. No entanto,seus nomes verdadeiros, para mim,são os aspectos de seus cabelos,que dizem mais sobre elas do que os nomes de batismo.

Helena, por exemplo, era dada a permanências, tinha uma vida que considerava segura,não obstante o cansaço, sem mudanças drásticas. Estudava numa faculdade da capital,tinha um namorado de quem era noiva há 6 anos,queria um futuro tranquilo,com trabalho, família, filhos. Um futuro longo e tranquilo, como seus cabelos.

Já Agnes tinha o espírito inquieto.Era possuída pela tragédia dos poetas. Amava o drama, as paixões, o sexo, as transformações violentas, a força das marés.

Dali seguiram para a praia vizinha, onde Cabelos Revoltos tinha uma casa.

E, no quarto, enquanto trocavam delicadezas aflitas entre si,era como se um mar inteiro jorrasse entre as pernas de ambas e as vagas desse mar de ressacas violentas sugassem uma para dentro da outra, num movimento furioso de demências incontidas. Mar que nascia, doce, do ventre das duas, ou, quem sabe,dos relevos dos seios, untados de saliva e massacrados por dedos repletos de bocas famintas pela pele perfumada das fêmeas.

E depois de horas gestando o mar,ficaram à deriva, náufragas e nuas, num misto de sal e doçura, sob os olhares da lua.

Agnes, cujos tentáculos de polvo comprimiam o corpo pálido de Helena, trazia nos olhos a escuridão das águas noturnas. Helena sonhava com luzes de embarcações antigas e com trilhos de trem quando anoitece.

E,dessa forma, deram à luz a mares belíssimos, durante todo o verão.

Mas o outono chegou.

E foi assim que se despediram:
Nos pensamentos de Helena, a de cabelos longos, sonhos burgueses, American Way of Life,carrinhos de bebê e camisetas de homem, numeradas e suadas nos fins de semana.

Dentro do coração de Agnes, a de cabelos revoltos,ciganos sérvios de Fellini dançavam uma melodia pagã,num navio azul,impregnado da noite.

Moby Dick

Não se pode simplesmente erguer a mão com a espada e esperar que esse gesto vazio seja o responsável pelo fim da vida do dragão. Não se mata um dragão com um golpe. Enquanto somos pequenas criaturas efêmeras, que erramos vivos durante uns poucos cinquenta anos, os dragões tem milênios vagarosos para envelhecer, endurecer ossos e músculos, acumular riquezas e sabedoria, além de aprimorarseu hálito de fogo. Ninguém pode esperar que matar um dragão seja uma dessas ordens do dia ou a conclusão de uma viagem ou uma oportunidade única que aparece para uns poucos escolhidos. Somente uma inocência que beire a estupidez pode fazer crer que essa imensa diferença de forças possa se resolvernuma pequena incursão de poucos meses até o lar do dragão, onde o encontraremos dormindo e poderemos exercer nossa humanidade e bravura ao apunhalá-lo desacordado, presumindo que esteja indefeso e seja tocável, alcançável, superável. Para que aconteça essa luta é necessário buscar o impossível equilíbrio de forças.

E, antes de tudo, nunca há um dragão, mas o dragão.E isso faz toda a diferença.

O dragão dessa história é Fafnir. Não o mitológico Fafnir, esse é só um nome aproveitado, porque, sim, dragões possuem suas identidades cristalizadas e muito bem definidas. O caçador de Fafnir é Greg, nascido numa vila qualquer num mundo onde reinos e cidades são aterrorizados por dragões. Greg foi escolhido, assim que nasceu, para perseguir e derrotar Fafnir, que se permitiu esperar calmamente, destruindo outros adversários enquanto este ou outro qualquer ainda não se sentissem à altura para serem por ele esmagados. Não sejamos inocentes, o dragão já passou por essa situação muitas e muitas vezes.
Greg vive esperando o momento exato de confrontar o dragão e tudo que faz em sua vida, faz unicamente esperando esse grande momento. Seu único objetivo é matar Fafnir. Acorda para que um dia o mate. Come, trabalha, faz sexo, se desentende com o mundo e se acerta com pessoas, busca afinidades, especialidades, aprimora-se, envelhece e experimenta o universo (o quanto háque se possa aproveitar) para que um dia o mate. Não pode haver verbo que se afaste de sua causa única, ou reflexão que prescinda seus dentes, a envergadura de suas asas ou o peso de sua boca. A questão entre eles é uma questão de vida e morte para ambos. E, no entanto, Greg nunca viu Fafnir e o dragão não se importa com a existência de mais um humano.
Ainda assim Greg adivinha o dragão por todos os lados. Na tristeza perene dos velhos, no medo das mulheres com seus filhos esfomeados, na pobreza do espírito e da despensa dos homens comuns. Tudo aponta o dragão, tudo faz crescer o ódio e a certeza de sua missão. Tudo é matéria para que seus mestres (que nunca o enfrentaram) possam lhe descrever o terrível inimigo mais as táticas, os mecanismos, as estratégias para a vitória da humanidade. Temos um homem. Temos um dragão. Um único ódio e uma rivalidade que adivinhamos ser instantânea.

Mas a vitória pertenceria a todos.

De uma maneira que eu não consigo decifrar ou compreender, os mestres de Greg conseguem fazer essa crueldade parecer o prêmio, provavelmente único ofertado ao matador do dragão. E não faltam mestres que o ensinem, que o façam caminhar, viajar, aprender. Greg se versa nos caminhos da natureza, da magia, da batalha, nos caminhos que nossa concepção podem compreender num espaço de trinta e poucos anos, com dedicação e esforço (é comum nas missões nobres haver essa dose extra de dedicação e esforço).
E Greg conhece os reinos distantes e as filhas dos reis;
busca o anel mágico da vitória na terra das fadas;
traz a espada sagrada do túmulo do guardião do inferno;
aprende com o eremita místico a interpretar os sonhos;
forja na lava o elmo e a couraça mágica, que devem ajudá-lo e resistir aos dentes de Fafnir;
caminha com os índios sobre as árvores, sob a água e no lombo dos grifos, no céu.
Greg se sente pronto, como todos nós um dia nos sentimos prontos para algo que nos é completamente assustador e desconhecido, e parte em busca do Covil de Fafnir.
No caminho encontrará ainda outros (bravos? Pobres?) homens que vivem e caminham com o mesmo objetivo. E mesmo ao redor de todos esses, a batalha ainda é individual, objetivo de um e cada um deles. Caminham juntos por seis meses, seis dias e seis horas, pela trilha do infortúnio, que conduz ao grande castelo escuro, incrustado na montanha, onde Fafnir fez sua casa.
No caminho eles tem a oportunidade de destruir bestas menores e menos perigosas, como leões de asas, aranhas gigantes e homens muito fortes e deformados, banidos para o convívio com o dragão por não se parecem suficientemente humanos para as cidades. Os heróis menos preparados, talvez os que não se arriscaram o suficiente antes, caíram aí, antes da câmara principal. Apenas seis deles sobreviveram até a porta no último dos corredores do palácio/caverna. A porta, como todas as outras, é enorme e adornada com pedraria, ouro e ossos dos mais variados animais. Para passar não precisam mais que afastá-la um pouco e a experiência das outras portas faz com que realizem isso em relativo silêncio. Se Fafnir estiver descansando será pego completamente desprevenido e poderá ser morto rapidamente. Mas Fafnir não descansa e espera por eles no principal salão de seu castelo, construído especificamente para que ele possa derrotar deuses e demônios em eternas e sangrentas batalhas. O que dizer de seis simplórias criaturas humanas.

Inimaginável é o poder de Fafnir. Nada que Greg passou ou viu poderiam preparar seu espírito para o que o esperava naquele salão.

O aspecto aterrorizante do dragão não lembrava em nada as descrições reptícias com as quais ele se familiarizara. O enorme corpo denso do animal se equilibrava sobre três pares de patas escamosas, mas o corpo era liso e branco, como couro curtido e tratado. A cauda era curta e robusta, dividida em quatro partes, de onde pendiam centenas de pequenas ventosas dentadas. Nas costas, Três imensos pares de asas seráficas se agitavam para dar maior velocidade ao assassino. A colossal cabeça, um maciço bloco branco, era muito desproporcional ao resto e era o retrato de tudo o que havia de mais absurdo e terrível na existência. Os olhos laterais estavam separados por vários metros de uma testa acinzentada e bem abaixo, já há meio caminho do ventre, abria-se a fenda de sua boca.
O primeiro guerreiro avançou e foi feito em pedaços pela força das patas. Os cinco restantes perceberam que só teriam uma chance caso se organizassem parar atacar em conjunto.
Tudo ao redor se tornou mágico quando os cantos místicos foram entoados e os lutadores ergueram suas armas místicas. O salão brilhava, inabalável, mesmo quando martelos ribombavam e relâmpagos atingiam suas colunas. Fafnir tinha espaço suficiente para voar e respirar fogo sobre seus atacantes. Vitimados pelas chamas, pelas garras, pelo veneno, um a um, caíram os quatro homens sem nome que acompanhavam nosso protagonista. Havia duas únicas criaturas vivas na sala. Greg era um homem enfurecido, assustado, cansado e desprovido de esperanças. Fafnir era o apocalipse. Greg avançou como quem corre de encontro a uma locomotiva e conseguiu desviar o corpo de uma mordida certeira, além de golpear uma das patas do dragão. Fafnir fez uma curva no ar e subiu, descendo em seguida para seu ataque. A esquiva do guerreiro não foi tão eficiente nessa segunda vez e o poderoso maxilar do monstro se enterrou nos músculos da perna de Greg, decepando-a com a facilidade de quem arranca uma amora no galho. Dor, desespero e, acima de tudo, sangue. Greg se arrastava e golpeava o ar com a espada. Fafnir pousou e o encarou por alguns segundos que se estenderam como todo o tempo que Greg possuía em sua vida. Era o tempo que restava. O dragão virou a cabeça para que seu olho esquerdo pudesse focalizar o homem a sua frente. Esse homem era feito de pânico. Então o dragão atacou.